Segunda-feira, Dezembro 05, 2005

35. Visita ao interior do homem

Em homenagem a Caio Fernando Abreu, e a seus dragões que não conhecem o paraíso, in memoriam

Para V., que entende desses visitantes


Num desses dias de chuva típico dos tristes junhos, nas proximidades de uma Festa dos Namorados que seria marcada por uma dolorosa solidão de relacionamento recém findo, encontrei numa gaveta perdida essas páginas amareladas, manchadas pelo tempo. Não sei quem as escreveu, pode até ter sido eu mesmo, não lembro. Só sei que isto é o que consegui salvar do que nelas estava escrito. A identificação com as palavras é paradoxalmente reconfortante.

"E, de repente, em mais um de meus dias como pessoa banal que sou, percebi ter recebido, há exatos quatro anos, a visita daquele dragão ao interior de mim.

Não, isso não é verdade.

A chegada daquele dragão, invisível, era anterior à minha cega percepção, e não se tratava de visita alguma, que aquela presença em minha vida tinha vindo com a intenção de ficar, ocupando e desocupando meu coração e minha mente, até o fim de meus dias. Aquele ser tomou-me por inteiro, penetrou em minha vida sem esperar convite, instalou-se em meu íntimo, dominou meus pensamentos/sentimentos e, mesmo calado, mesmo latente, mesmo indo e vindo, sempre inalcançável e incompreensível, tornou-se alguém que me levou a reescrever minha própria existência.

Como não percebi desde logo a chegada de presença tão intensa assim? Como me deixei dominar por esse alguém que me destruía inexoravelmente todo um mundo interior pelo simples fato de existir em mim? Como permiti que explorasse minhas fraquezas e me prendesse em tão dolorosa ciranda de dependência e culpa, em inebriantes cheiros de hortelã e alecrim, inescapáveis? Não sabia, não entendia as verdades por trás disso tudo, as inevitáveis lições que tinha a aprender, apenas via que, depois daquela ensolarada e nebulosa manhã de quarta-feira, perdida na memória, há exatos quatro anos, depois daquela percepção, minha vida nunca mais foi a mesma. E, como uma infame confirmação, um dia percebi, tatuado em minha pele, o símbolo daquele dragão, como uma marca de tudo o que aquela presença me trouxe, afastando-me, inevitavelmente, do paraíso com que sempre sonhei.

(...)

Ainda assim, toda a minha banalidade, todo o meu amor por, é maior do que qualquer dragão que me queira dominar. Descobri que meus pensamentos/sentimentos são mais fortes que eu mesmo suponho, que não sei a imensidão de minha coragem e de minha covardia, da minha força e da minha fraqueza, e que existe em meu interior uma chama que nunca se apaga e que, com seu fogo, esse dragão apenas alimenta, mais e mais a cada dia. E, nesse tempo de novas descobertas, percebi que, apesar de todas as aparentes impossibilidades que quer impor ao meu desejo de alcançar minha ficção de paraíso meu dragão (sim, porque hoje já o considero meu, mesmo sabendo que dragões não pertencem a ninguém, que não dividem seu espaço com ninguém, apenas tomam o nosso), nunca vou perder a esperança de, quem sabe um dia, aprender a conviver com este ser em mim e conseguir, novamente, acreditar que será doce."

Domingo, Dezembro 04, 2005

34. e. e. cummings

"i carry your heart with me (i carry it in
my heart) i am never without it (anywhere
i go you go, my dear; and whatever is done
by only me is your doing, my darling)
i fear
no fate (for you are my fate, my sweet) i want
no world (for beautiful you are my world, my true)
and it's you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you

here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life; which grows
higher than the soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that's keeping the stars apart

i carry your heart (i carry it in my heart)"


A todo mundo, e a ninguém em particular, porque estou solteiro, mas ainda tenho em mim muito amor.

Sábado, Dezembro 03, 2005

33. Felicidade num momento

E foi no início desta noite de sábado, sentado aqui num dos sofás da casa de Elena, assistindo com ela a um filme antigo, após um dia inteiro na praia, sob o sol que ainda me aquecia a pele em marcas bronzeadas, digerindo ainda todas as informações que tinha recebido e que redimiram em mim uma imensa frustração que sentia comigo mesmo e reinventaram a lembrança de alguém que me foi a pessoa mais importante da vida um dia, foi exatamente no início de uma noite banal como esta que desviei minha atenção do filme a que assistia, ouvindo os constantes comentários de minha amiga, e olhei para o lado, e a vi deitada no sofá, vendo o filme também, agora calada, e lembrei de Lais no quarto ao lado, provavelmente navegando pela internet, e pensei em tudo o que me tinha acontecido este ano, toda a alegria e dor e crescimento que disso surgiu, e percebi, senti, reconheci para mim mesmo, com um sorriso de meu coração, cercado pelas amigas minhas, pelo filme, pelo calor, pela redenção, pela reinvenção, pelas lembranças, que ali, naquele momento, exatamente naquele início de uma noite de sábado, um dos últimos do ano, perdido para sempre no tempo, vivia um momento de pura felicidade.

E me senti em paz...

Sexta-feira, Dezembro 02, 2005

32. Maternidade

Deitada naquela cama de hospital, aguardando ser levada para a sala de cirurgia, apreensiva, percebi em seu rosto, pela primeira vez, as marcas do tempo. Não sei se por força do jejum pré-operatório a que você se teve de submeter, ou se por medo do que pudesse acontecer naquele centro cirúrgico ou após, ainda que os médicos estivessem tranqüilos quanto ao sucesso da intervenção e ao posterior diagnóstico da estabilidade de seu estado de saúde, vi sulcos em seu rosto, sombras sob seus olhos, contrações em sua boca que normalmente não estão lá, marcando sua face com traços dolorosos de turbulência emocional. E me vi lembrando da visão de você em momentos mais alegres e tranqüilos, de sua insistência em me beijar o pescoço, por saber que me faz sentir cócegas, de sua eterna mania de querer conversar comigo e saber sobre meu dia, não importa a hora ou o cansaço com que eu volte para casa, de seu clamor para que nos sentemos todos juntos à mesa, nos raros fins de semana em que compartilhamos as refeições, de sua preocupação constante com meu estado de saúde, ainda que eu insista em fechar-lhe a porta a acompanhar essa evolução, de sua aceitação de como sou, independente de minhas escolhas me afastarem de quem você sonhava que eu fosse. E quis-lhe ser próximo, quis retribuir com um gesto de carinho seu olhar fixo em mim, brilhando de lágrimas contidas, mas mais uma vez me retrai em minha covardia e vi você ser levada para a cirurgia, da qual voltaria algumas horas depois, mais tranqüila, e faminta, e deixei passar outro momento em que podia ter-lhe demonstrado, mais do que com qualquer palavra, o quanto a amo, mãe, como tento fazer e me redimir agora.

Quinta-feira, Dezembro 01, 2005

31. Paternidade

Hoje é aniversário de meu pai, meu herói.

Tenho com meu pai a relação mais silenciosa daquelas que inevitavelmente cultivo com aqueles que amo. São raras as vezes em que já lhe disse que o amava, ainda que ele seja meu exemplo de vida, a pessoa que mais me inspira neste mundo a ser sempre melhor. Devo a ele meu crescimento pessoal marcado pelo contato com as mais diversas culturas, minha busca constante por um comprometimento profissional que me leve a querer estar dentre os melhores naquilo que escolho fazer, minha noção de que a família é maior do que qualquer silêncio ou distância. Nossos encontros são poucos, que apenas o vejo aos fins de semana, e ainda assim brevemente, que normalmente meus sábados e domingos são ocupados pelo convívio com os amigos que me ajudam a suportar as delícias e agruras da vida de solteiro. Meu cultivo silencioso de nosso amor familiar me tornou fisicamente distante de todos, reconheço, e ainda tenho de trabalhar em mim a recuperação presencial desse vínculo. Por enquanto, covarde em minhas verbalizações, sirvo-me desses escritos para comemorar, veladamente, ainda que ele nada disso leia, seu aniversário.

Pai, perdoa minhas ausências, meus silêncios, minhas distâncias. Crê no meu agradecimento, no meu reconhecimento, no meu amor. E lembra que, antes de ser qualquer um, homem, amigo, fã, sou, acima de tudo, seu filho. E nunca vou conseguir expressar em palavras o tamanho do orgulho que sinto por você. Ou do amor.

Feliz Aniversário.

Terça-feira, Novembro 01, 2005

30. Finado

Obituário extraído de um jornal fictício, circulando em uma cidade imaginária, publicado no dia 31 de fevereiro de um ano esquecido no calendário de uma dessas civilizações há muito tempo desaparecidas.

O Amor morreu. Num acidente trágico, ao descer as escadas de um porão sujo e abandonado, caiu e quebrou o pescoço. Testemunhas disseram que o viram adentrar nos confins daquele coração solitário dizendo ir salvar uma alma perdida em meio à escuridão da desesperança. Durante as investigações, contudo, nada foi encontrado naqueles recantos em que ocorreu o óbito, a não ser velhas cartas de afeto, fotografias emboloradas de momentos de carinho, ruínas de paixões antigas. Há quem diga que o Amor cansou-se de vagar sozinho naquele isolado coração, que ele não conseguia salvar da solidão, e decidiu pôr fim à sua própria injustificada existência. Há quem diga que era o próprio Amor a alma perdida em meio à escuridão da desesperança que ele mesmo não conseguia salvar. Não haverá velório. O que restou do finado será cremado junto com o coração onde ele escolheu morrer.
Antes que comecem as indagações, não, não perdi a fé no Amor, nunca perco. O texto acima é meramente alegórico, buscando celebrar, através da negação e da morte, o eterno renascimento desse sentimento. O Dia de Finados é apenas amanhã. Hoje é de Todos os Santos, que sempre abençoam o Amor que sinto...

Segunda-feira, Outubro 31, 2005

29. Docinho

Ficava sempre ali, naquela vitrine, esperando o dia em que o pegariam para levar para casa. Acompanhava ansiosamente o entra e sai de pessoas em busca de delícias, conforto, presentes, ouvia as preleções do orgulhoso confeiteiro acerca de suas qualidades, da fineza de seu gosto, da beleza de seus traços, mas continuava ali, só, naquela vitrine, à espera do dia em que o pegariam para levar para casa. É bem verdade que, por algumas vezes, esteve nas mãos de pessoas que se interessaram por ele, que o apreciaram, que o guardaram junto a si enquanto passeavam pela loja, mas, ao final, sempre era trocado por outro mais bonito, ainda que menos recheado, menos caro, ainda que mais efêmero, ou era simplesmente deixado lá por alguém que, apesar de o querer, acovardava-se em tê-lo por um injustificado medo de estar escolhendo algo além de seus subestimados alcance, posses, possibilidades, e ele voltava então, só, para aquela vitrine, a esperar o dia em que o pegariam para levar para casa. E, em sua solidão, vendo o vai e vem dos transeuntes, buscava entender porque despertava tantos conflitos nas pessoas, tantas inseguranças, tantos medos, já que, afinal, não passava de um simples docinho, um sonhador docinho que, só, naquela vitrine, esperava apenas o dia em que alguém o pegaria para levar para casa, acreditando poder construir, nele e com ele, uma chance de ser feliz.

Domingo, Outubro 30, 2005

28. Band-aid

Num domingo que se mostrou bastante agitado nesse meu primeiro fim de semana após o real início do processo de reconstrução de tudo em mim que se havia destruído nesse último mês, vi-me tendo de conciliar a ida à praia com as Madames e uns colegas de trabalho e a aceitação do convite para encarar uma sessão dupla de cinema feito por Leo.

Assim, logo pela manhã, atendendo ao meu primeiro compromisso, reunimos nosso grupo e chegamos à praia em torno de dez horas, com Sol escaldante e barracas já lotadas, e ficamos conversando, rindo e nos energizando com o calor do dia e com a celebração de nossa amizade. E, em meio a toda essa alegria, consegui a proeza de cortar o indicador da mão esquerda ao abrir uma lata de refrigerante, tendo de lidar com um leve sangramento e a falta de instrumentos adequados para cuidar de minha ferida. Não era nada que estragasse nosso programa, tanto que ninguém percebeu o que havia acontecido, mas, como qualquer outra pessoa, odeio a visão de meu próprio sangue e não me tranqüilizei muito até que o sangramento realmente estancasse.

Saímos da praia no início da tarde e decidimos almoçar antes que eu deixasse as Madames em casa e fosse ao encontro de Leo para assistirmos aos dois filmes que tínhamos decidido assistir. E foi somente então que fiz uns rápidos cálculos e percebi que tudo seria muito corrido, que somente conseguiria chegar ao cinema no tempo exato do início da sessão do primeiro filme. E assim foi.

Terminamos de almoçar e fomos direto para a casa de Elena, que elas estavam de carona comigo. Lá chegando, decidi dar uma parada para tomar um ultra-rápido banho, que ainda tinha alguns poucos minutos sobrando, e aproveitei para pedir que me conseguissem um band-aid, a fim de que eu minimamente protegesse meu machucado dedo. Por conta do meu opressivo atraso, não tive condições de fazer logo o curativo e apenas coloquei o band-aid no bolso, para cuidar disso depois. Saí correndo da casa de Elena e ainda consegui chegar ao cinema a tempo de não perder o início do filme, encontrando Leo lá mesmo, praticamente dentro da sala. E somente então, no escuro, peguei o band-aid e, sem prestar muita atenção no que fazia, agindo por puro tato e instinto, envelopei a articulação entre a falange e a falanginha de meu indicador naquele curativo e relaxei e assisti ao filme despreocupado.

E foi somente quando saímos da sala, após o término da sessão, ao lembrar do meu ferido dedo por ter sentido nele aquela leve coceira característica dos processos de cicatrização, que olhei para baixo e me deparei com um band-aid verde, estampado com rostinhos de seres que pareciam duendes alienígenas. Passei mais umas três horas naquele shopping, que ainda assistimos ao segundo filme que tínhamos decidido assistir naquele dia, e não podia olhar para meu indicador esquerdo sem ter de controlar o riso...


Lai, esse eu dedico a você, pelo seu senso de humor.

Sábado, Outubro 29, 2005

27. Mascarados

Ele chegou à festa sozinho, sabendo, contudo, que lá encontraria seus amigos. Havia relutado até o último instante em estar ali, mas um telefonema de última hora o convenceu e, improvisada a fantasia, animou-se a tentar divertir-se naquele baile. Logo encontrou seu grupo e teve a certeza de que estar ali aquela noite ia-lhe fazer bem. E, munido de sua redescoberta alegria, perdeu-se em meio àquele universo de aladdins, anjos, peter pans, freiras, centuriões, vedetes, super-heróis, foliões dispostos a esquecer, durante aquelas poucas horas, as duras marcas deixadas no rosto sem máscaras pelas provações do mundo lá fora.

Ele chegou à festa atrasado, sabendo, contudo, que lá encontraria quem o esperava. Havia sido retido até o último instante em outro compromisso que o impedia de estar logo ali, mas alguns telefonemas com o avançar das horas o incitaram e, vestida a fantasia com tanto esmero preparada, chegou ao baile em curso com a certeza de que se iria divertir. Logo encontrou seus grupos e confirmou que estar ali aquela noite ia-lhe ser mais feliz do que esperava. E, munido de seu iluminado sorriso, juntou-se àquele universo de havaianos, ciganos, egípcios, vedetes, mordomos, freiras, anjos, noivos, foliões dispostos a celebrar, durante aquelas poucas horas, as profundas marcas deixadas nos corações sem máscaras pelo encontro de almas amigas no mundo que se construía ali dentro.
E estavam os dois ali, juntos, sozinhos, próximos, distantes, esquecendo, celebrando, divertindo-se no surrealismo daquele microcosmo de fantasiada suspensão da realidade. E aproveitaram a noite da mesma forma, de formas distintas, rindo, dançando, interagindo, fugindo e se separando sem despedidas. E voltaram para casa como chegaram, sozinhos, atrasados, inebriados, leves, ainda que presos ainda às máscaras que se impunham.

Sexta-feira, Outubro 28, 2005

26. Significâncias

Quem sou eu para você? Porque estou aqui, mas não sei bem como você me enxerga. Porque enxergo as ligações entre nós, mas não sei bem como, percebendo-as, você me sente. Porque sinto uma certa insegurança face a isso tudo, mas não sei bem como e se essa insegurança em mim você percebe. Porque percebo significado e importância em nossos contatos, mas não sei bem como devo permitir que isso me afete. Porque não sei como você me afeta. E porque, em verdade, em meio à busca do entendimento de todas essa significâncias, a pergunta agora é outra, além daquela: quem é você para mim?

Quinta-feira, Outubro 27, 2005

25. "Conversa de botas batidas"

"Veja você, onde é que o barco foi desaguar.
A gente só queria o amor...
Deus parece às vezes se esquecer.
Ai, não fala isso, por favor.
Esse é só o começo do fim da nossa vida,
deixa chegar o sonho, prepara uma avenida,
que a gente vai passar.


Veja você, quando é que tudo foi desabar.
A gente corre pra se esconder
e se amar, se amar, até o fim,
sem saber que o fim já vai chegar.

Deixa o moço bater, que eu cansei da nossa fuga.
Já não vejo motivos pra um amor de tantas rugas
não ter o seu lugar.

Abre a janela agora, deixa que o sol te veja.
É só lembrar que o amor é tão maior
que estamos sós no céu.

Abre as cortinas pra mim,
que eu não me escondo de ninguém.
O amor já desvendou nosso lugar
e agora está de bem.

Deixa o moço bater, que eu cansei da nossa fuga.
Já não vejo motivos pra um amor de tantas rugas
não ter o seu lugar.


Diz quem é maior que o amor?
Me abraça forte agora, que é chegada a nossa hora.
Vem, vamos além, vão dizer que a vida é passageira,
sem notar que a nossa estrela vai cair."


Leo, em um de seus últimos comentários aqui no blog, escreveu sobre sua satisfação em encontrar, em muitos de meus textos, registros meus repletos desse sentimento complexo que é o amor. E, como ainda não me sinto à altura para escrever diretamente sobre toda essa abstrata complexidade, sirvo-me da letra dessa música de Los Hermanos que me acompanha nesse início de nova etapa de minha vida para pincelar algumas das concepções que tenho acerca da transitoriedade, permanência e grandeza do amor.

Quarta-feira, Outubro 26, 2005

24. Por tudo que fizeram por mim

E é chegada a hora de agradecer...
Quem acompanha este meu Diário deve ter percebido que passei por um mês complicado, vivendo o início, meio e fim de uma intensa e efêmera história de amor, marcada por primeiros momentos felizes e outros de incerteza e dor. Essa história terminou em mim, passou, mas trouxe novas verdades e reafirmou antigas certezas: é nos momentos de dificuldade que se reconhecem os verdadeiros amigos. E eu, neste aspecto e instante, reconheço também que sou um felizardo. Seja enviando scraps via orkut, seja comentando aqui no meu blog, seja escrevendo posts para mim em seus blogs, seja ligando para mim todos os dias, seja afastando-se e me dando o tempo necessário para a cura, seja estando ao meu lado e tentando-me distrair, contei com o coração de amigos meus durante esse período em que eu mesmo estava buscando entender o que fazer com meu próprio coração. E esse apoio veio das fontes mais certas, reafirmando-as em mim, mas também veio de fontes até então não descobertas, desvelando para mim verdades insuspeitas. Não vou nominar ninguém, que toda demonstração de carinho, por mais singela que tenha sido, foi extremamente importante para mim num determinado momento dessa história. Quero apenas deixar expresso aqui, aos meus amigos, que eles não têm noção de quão grande é meu sentimento de gratidão por tudo o que fizeram por mim...

Terça-feira, Outubro 25, 2005

23. Pneu furado

Quem não já se encontrou, em pleno início de madrugada, sozinho, vestido ainda com as roupas do trabalho, tendo de lidar com um pneu furado? Quem não já tirou estepe, macaco, chave de roda do carro, armou tudo para começar a troca, tentou folgar os parafusos daquele pneu que seria trocado pela primeira vez, e não conseguiu? Quem não já tentou esse processo algumas vezes, desistindo, colocando tudo de volta no carro, avançando um pouco por acreditar conseguir voltar para casa daquele jeito mesmo, parando, contudo, alguns metros adiante com medo de piorar a situação do pneu furado, tentando novamente trocá-lo, sem sucesso, e sujando-se cada vez mais nesse processo? Quem não já viu surgir do nada um desses moleques de rua para ajudá-lo em troca de uns trocados, justo naquele momento em que, após diversas tentativas frustradas, já se está desistindo de uma vez por todas, entregue ao cansaço e à desesperança? Quem não já teve de controlar a raiva de si mesmo ao ver a facilidade com que o garoto fez a troca, apenas porque ele, ao contrário de você, girou os parafusos no sentido correto para tirar o pneu furado e colocar o outro?

Não tinha trocado naquele momento e acabei agraciando aquele garoto com uma absurda nota de R$ 10,00 em agradecimento pela sua ajuda. Por minha absoluta burrice, eu mereci.

Segunda-feira, Outubro 24, 2005

22. Despertar

Não sei bem porque, mas hoje, em pleno meio da tarde, entre o concluir uma tarefa qualquer no trabalho e uma pausa para tomar uma xícara de café, num momento de uma desconcertante banalidade, terrivelmente contraditório com toda a intensidade de nossa história, senti algo mudar dentro de mim. Não sei se foi o acostumar-me com a falta de contato direto contigo durante essa semana que sucedeu aquele nosso último encontro, não sei se foi a constatação de que, apesar da alegada vontade de estares sozinho para justificar não ficares comigo, tu buscas construir uma nova história com um outro alguém, não sei se foi meu simples cansaço de explorar os limites da dor que sinto e minha necessidade, vontade, saudade de voltar a ser feliz, apenas sei que senti algo mudar dentro de mim, como uma porta que se abre e deixa entrar a brisa e a luz e o calor do Sol, aquele mesmo que, por tantas vezes, foi testemunha de alguns de nossos momentos mais felizes. E o sonho de nós dois que ainda me assombrava um pouco se dissipa como fumaça na brisa que entra pela porta novamente aberta, e a luz e o calor preenchem o vazio de meu peito, trazendo de volta a energia de que preciso para fazer nascer meu novo coração, no lugar daquele que contigo deixei em tua cidade, com todo o amor que sinto por thi.

Amanhã, faz um mês que nos conhecemos e que se iniciou o sonho de nossa história de amor.

Hoje, desperto.

E este é o último post que aqui escrevo dedicado a thi.

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"Nosso sonho
Se perdeu no fio da vida
E eu vou embora
Sem mais feridas
Sem despedidas
Eu quero ver o mar
Eu quero ver o mar
Eu quero ver o mar

Se voltar desejos
Ou se eles foram mesmo
Lembre da nossa música
Música
Se lembrar dos tempos
Dos nossos momentos
Lembre da nossa música
Música

Nossas juras de amor
Já desbotadas
Nossos beijos de outrora
Foram guardados
Nosso mais belo plano
Desperdiçado
Nossa graça e vontade
Derretem na chuva

Se voltar desejos
Ou se eles foram mesmo
Lembre da nossa música
Música
Se lembrar dos tempos
Dos nossos momentos
Lembre da nossa música
Música

Um costume de nós
Fica agarrado
As lembranças, os cheiros.
Dilacerados
Nossa bela história
Está no passado
O amor que me tinhas
Era pouco e se acabou

Se voltar desejos
Ou se eles foram mesmo
Lembre da nossa música
Música
Se lembrar dos tempos
Dos nossos momentos
Lembre da nossa música
Música"


Música, de Vanessa da Matta

Domingo, Outubro 23, 2005

21. Últimos Torpedimentos

Teus, em 29 e 30 de setembro

Para um Motorola E380, ontem:
É tudo uma pena, mas a Realidade é mais forte que a Vontade, e a Vida sabe o que faz.
Vou te levar comigo como um sonho, um sonho bom, pelo qual lutarei contra o tempo que o quererá apagar.
Obrigado por esses adormeceres felizes dos últimos dias e por me ensinar a te adorar.
Você é mais do que você mesmo imagina.
De um Motorola E380, ontem:
Não sei até quando evitarei a felicidade em mim, se até mesmo tendo alguém incrivelmente especial, crio muralhas...
Seu lugar está vazio em meu abraço, mas meu peito arde por sua inesperada vinda a meu coração.
Somos um sonho!
E o tempo jamais apagará o que é eterno, mas somente o que perece.
Adoro sua chegada constante e sua permanência.
Não se engane: SOMOS mais, sempre mais do que imaginamos.
Do PC de Elena, hoje:
O dia amanheceu meio que nublado, sol envergonhado, garoa.
Foi como ontem sem você. E foi ainda mais como ontem sem você quando abriu-se o dia.
À noite chuviscou em meu peito, por breves instantes. Mas não demorou estar iluminado pela alegria de viver você.
E a manhã agora contempla meu peito, e como que por inveja, resolve mostrar-se ensolarado.
É por isso que trago sua existência comigo. E como quero eternos dias ensolarados, trarei sempre. Por todas as manhãs...
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Meus, em 22 e 23 de outubro

De um Motorola E398, ontem:

Não sei se foi a chegada do fim de semana, não sei se foi a lembrança de que faz uma semana desde que, apenas sei que sinto uma imensa saudade e uma dolorosa falta de você.
Voltei a sair com os amigos, na tentativa de me distrair e de não pensar tanto em tudo o que aconteceu, em seu querer mas não conseguir, em meu querer e não me verem permitir, mas ainda assim, apesar de tudo, não consigo preencher o vazio da lembrança de viver você.
Mas ao menos acredito estar criando a consciência de que seu Universo precisa PASSAR e ficar em mim, pela sua felicidade, pela minha felicidade, por mais que eu não queira que tudo tenha de ser assim.
Ainda hesito, na incerteza de que este seja o caminho certo, mas este é o caminho que você me ensinou, que você espera de mim, e sigo-o, resignado, na esperança de um dia ser novamente feliz.
Mas ainda estou aqui por você.
E vou estar, sempre...
A verdade é que você ainda está entranhado em mim, com todo seu rosto, seu corpo, sua alma, enfim.
A verdade é que, por mais que eu tente, seu Universo fica.
Mas ele também vai passar.
E a esperança surge na descoberta hoje de que chegam a mim forças para conter as lágrimas que insistem em, de vez em quando, cair por você.
E acredito que voltarei um dia a sorrir por tudo, por você.
Porque sei que, de alguma forma, vou te amar, para sempre...

De um Motorola E398, hoje:

Passei o dia inteiro lutando contra a vontade de te ligar, contra as lágrimas que insistiam em querer cair por thi.
Mas a percepção de que você parece seguir em frente com outro alguém matou a vontade, secou as lágrimas e me fez dar mais um passo no afastar-me da lembrança de nós dois.
Ainda te amo, mais do que sei, mas me livro aos poucos da crença em nós dois.
Quem sabe no dia em que você conseguir...
Por enquanto, te amo, mas sigo em frente.

Sábado, Outubro 22, 2005

Intermezzo 6 - Fins? / Começos?

"Adeus você...
Eu hoje vou pro lado de lá.
Estou levando tudo de mim,
que é pra não ter razão pra chorar.
Vê se te alimenta e não pensa que eu fui
por não te amar.

Cuida do teu
pra que ninguém te jogue no chão.
Procure dividir-se em alguém;
procure-me em qualquer confusão.
Levanta e te sustenta e não pensa que eu fui
Por não te amar.

Quero ver você maior, meu bem,
pra que minha vida siga adiante..."

Adeus você, de Los Hermanos

Porque começo a entender que chegamos ao fim.
Porque começo a aceitar que precisamos de um novo começo.
Apesar de.

Sexta-feira, Outubro 21, 2005

Intermezzo 5 - Ilusões

"Vivo iludido a acreditar que o amor não se pôs em você"

Mais uma canção, de Los Hermanos

Porque acredito perceber uma ilusão em meu espírito.

Quinta-feira, Outubro 20, 2005

Intermezzo 4 - Confusões da razão / emoção

"De tanto eu te falar, você subverteu o que era um sentimento e, assim,
fez dele razão... pra se perder no abismo que é pensar e sentir."

Sentimental, de Los Hermanos

Porque acredito perceber uma confusão em teu espírito.

Quarta-feira, Outubro 19, 2005

Intermezzo 3 - Muito mais amor

"E, ao Senhor de Iludir,
manda avisar que esse daqui
tem muito mais amor pra dar"

É de lágrima, de Los Hermanos

Porque o amor é imenso, maior do que penso.

Terça-feira, Outubro 18, 2005

Intermezzo 2 - Sentimentalismos

"Você me avisar, me ensinar, falar do que foi pra você,
não vai me livrar de viver...
Quem é mais sentimental que eu?
Eu disse, e nem assim se pôde evitar."


Sentimental, de Los Hermanos

Porque ainda vivo preso a todos aqueles sentimentos.

Segunda-feira, Outubro 17, 2005

Intermezzo 1 - As lágrimas

"É de lágrima que faço o mar pra navegar"

É de lágrima
, de Los Hermanos

Porque choro. Muito.

Domingo, Outubro 16, 2005

20. A queda

E ali, à beira do abismo, fechei os olhos, abri os braços, mantive a coluna ereta e deixei a gravidade puxar meu corpo para frente e para baixo, rumo ao que quer que me esperasse no fundo de. E, durante a queda em direção ao desconhecido, com o vento me açoitando o corpo e o rosto, vi-me sendo engolido por todos os sentimentos trazidos pelas experiências que vivia, encontrei-me afogando nas duras emoções daqueles momentos...

E via-me naquela cidade que se mostrava nova para mim, mas ao mesmo tempo antiga, que meu coração lá já se encontrava há duas semanas e não me permitiu perder-me em seus caminhos, ainda que, sozinho, eu retornasse, ao fim da viagem, a tua casa, para uma difícil despedida. E percebia nas amigas tuas, nas amigas nossas, um incentivo para que ficássemos juntos, que elas com certeza viram, através de teus olhos, palavras e gestos, através de meus olhos, palavras e gestos, um recíproco e certo e bonito gostar. E conversava contigo e olhava para thi e não conseguia ver nada, não conseguia esboçar nada mais nosso e íntimo, que o medo paralisante do fim tomava conta de mim. E, apesar de ter Elena ao meu lado, perdia-me sozinho naquele quarto de hotel, deitado insone naquela cama, buscando entender a confusão do teu gostar mas não se permitir. E, após uma tentativa fracassada de bem me alimentar, escrevia-te um cartão que, antes de retornar a minha cidade, deixaria contigo, junto com os novos boné e camisa que comprara para thi, para proteger em tua cabeça e em teu peito as lembranças de nós dois. E ia ao teu encontro para esta última entrega, sozinho, e ouvia tua voz me dizendo que tu querias ficar sozinho, ainda que teus atos, por todo esse tempo e ainda então, dissessem-me outras coisas. E aceitava tua decisão, ainda que não entendesse os motivos que não me deste, apenas em razão do que duramente te ouvi expressar através de tua contraditória voz, dizendo-me que tu querias estar sozinho. E percebia que, apesar de tua decisão, eu estava errado, que nunca houve a possibilidade de eu levar de volta comigo um coração partido, que meu coração sempre ficaria contigo, inteiro com o amor que te dei, que te dou, e de que nada nem ninguém te poderá privar. E acreditava vislumbrar em teus olhos um brilho fugidio de lágrima contida antes de dolorosamente ficar a contemplar o afastar-te de mim, sem olhares para trás. E via-me voltar para casa usando na cabeça o boné que recusaste, carregando numa caixa a camisa que devolveste, que apenas guardaste de nossa despedida o cartão que escrevi, alegando que o ficar com o resto te machucaria. E sentia, durante todo o percurso de volta e ainda agora, no lugar do peito em que não mais pulsa o coração que deixei contigo, que é teu, um imenso e inescapável vazio...

E ali, no meio de todo aquele vazio, acordei. E percebi que não havia abismo, impulso, queda, que não saberia o que havia ao fim daquele precipício, se a dureza das poças, ou a imensidão azul do mar que se encontrava com o horizonte, que tudo não passava de um sonho, e que chegara a hora do doloroso despertar. E, ainda que eu me agarre ainda às turvas reminiscências desse sonho, aqui deitado, solitário, perdido nesta cama em que estivemos juntos pelas primeiras e última vezes, e que também já abrigou a tua solidão, sei que meu breve e próximo adormecer não o trará de volta, não thi trará de volta, e que, a partir de agora, terei de enfrentar, sozinho, as dores de tentar fazer nascer, no vazio de meu peito, um novo coração...

Sábado, Outubro 15, 2005

19. Um impulso

Viajo até tua cidade hoje, em busca de meu coração que levastes ao partir. Tenho de saber se posso deixá-lo ficar aí contigo, na certeza de que será bem cuidado, ou se preciso trazê-lo de volta comigo, partido em pedaços, e começar o processo de recolagem de seus cacos.

Que aqueles que me amam torçam pela minha felicidade, como quer que ela se apresente.

18. À beira do abismo

Aqui, do alto deste penhasco, sacudido pelos conflitantes ventos da razão e da emoção, à beira do abismo, não consigo ver o que existe lá embaixo. Apenas tenho a certeza de que vou abrir os braços, fechar os olhos e empreender este vôo, não importa a que preço. Espero que não me aguarde no chão a dolorosa dureza de rasas poças remanescentes de águas passadas, e sim a imensidão do mar que contemplamos naquele dia em que estivemos juntos e sós pela primeira vez. E que eu seja abraçado pelas águas desse ainda misterioso mar, naquele exato ponto em que seu azul se confunde com o do céu no horizonte... E que eu sinta esse abraço como o seu naquela noite em que adormecemos e sonhamos juntos e sós pela primeira vez... E que nós e eu e a queda e o mar e o abraço e tudo seja, neste instante, infinito, como o medo que agora sinto parado aqui, do alto deste penhasco, sacudido pelos conflitantes ventos da razão e da emoção, à beira do abismo...
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"Não há nada no mundo que possa fazer
Eu deixar de cantar
Ou deixar de gostar de você
Não há nada no mundo, nem nunca haverá
De mais alto ou mais fundo

O meu canto é meu céu
E você é meu mar
Duas coisas que dentro de mim
Não podem ter fim
Dois azuis no mesmo azul

Meu horizonte sem nuvem nem monte
Em mim o eterno é musica e amor
Eu deixar de cantar
Ou deixar de gostar de você
Não há nada no mundo que possa fazer"

Eterno em mim, de Caetano Veloso, na voz de Maria Bethânia

Sexta-feira, Outubro 14, 2005

17. Torpedo e telefonema

Estava na creperia ontem com a Grega, desfrutando de seu colo, oferecendo-lhe o meu, quando decidi enviar uma mensagem para teu celular assumindo a imensa saudade que sinto de thi. E, por uma dessas ironias do destino, aquela mensagem somente te foi entregue esta tarde, enquanto ouvias "The blower's daughter" ("And so it is..."), música que disseste ao partir que sempre te faria lembrar de mim. E dessa lembrança veio um imediato telefonema teu, que me encheu de uma alegria vacilante frente a todo o silêncio de tuas palavras do início desta semana. Mas, assim como ao telefone não sabia o que te dizer, não sei o que fazer com o que ainda sinto por thi. A percepção de minha presença ainda em tua lembrança, apesar de tudo o que foi dito e escrito, mexeu comigo, subverteu todas as dores e tristezas que durante este dia senti e trouxe o retorno de uma imensa vontade de te mostrar a possibilidade de vivermos nós dois, juntos. E fico agora aqui, sozinho, submerso em toda a força que foi e é estar contigo ou com a lembrança do que fomos e do que podemos ser um dia. E a saudade só aumenta, imensa, e me faz querer que. Não sei o que fazer. Apenas sei da certeza e da verdade do amor (sim, do amor) que sinto.

Quinta-feira, Outubro 13, 2005

16. Palhaços de Ilusões Perdidas

Para Elena K., pela empatia de nossas dores

Éramos duas almas perdidas sentadas naquele sofá da creperia forrado com um fuxico multicolorido, ao lado de um abajur que emitia uma difusa e embaçada luz que não se decidia entre um amarelo pálido e um verde mortiço. Dois Palhaços de Ilusões Perdidas, que se encontraram numa noite insípida de uma quinta-feira pós-feriado para tentar algum consolo recíproco para suas dores. Você com o fantasma ali presente de um passado que ainda a atormenta, eu com o fantasma dali ausente de um futuro que ainda não se afirma. E, perdidos em meio a essas nossas ilusões, ouvíamos um ao outro, sempre criando egoístas paralelos com a infelicidade própria, querendo dividir com o outro a nossa dor, tentando fazer com que, assim, ela diminuísse em nós. Não queríamos conselho, queríamos conforto. Sabíamos da exata extensão de nossas ilusões, de nosso perder-nos nelas, mas não queríamos ser resgatados, queríamos apenas sentir que alguém sabia e se identificava com e entendia a nossa dor. Precisávamos de colo e nos perdíamos nos braços e espectros de abraços um do outro, criando ali, naquele sofá, um microcosmo só nosso, de expiação de. Não posso dizer que nos sentimos bem ao final daquilo tudo, que deixamos naquele sofá o microcosmo que criamos, que não o levamos conosco, para sempre, como marca desses tempos difíceis. Mas sei que saímos de lá, de certa forma, mais fortes juntos, ainda que ainda perdidos, ainda que ainda iludidos, ainda que ainda palhaços, marionetes de nós mesmos, manipulados por nossos diáfanos desejos, sonhos, esperanças. O abraço, dessa vez não espectro, que trocamos em nossa despedida serviu para confirmar o entendimento, o entrosamento, o contentamento de ter um ao outro naquele instante. E nunca conter as lágrimas foi tão fácil, que o vertê-las borraria minha maquiagem de Palhaço e me faria sentir que traía você, minha companheira de Ilusões Perdidas...

Quarta-feira, Outubro 12, 2005

15. Em tuas palavras, a voz do silêncio

Tuas palavras

Recebi tua ligação na última segunda-feira como quem, num breve cochilo, consegue reviver, por mais impossível que possa parecer, um antigo sonho, que acreditava que não mais conseguiria resgatar, com tanta doçura, das profundezas do meu subconsciente. Passei aquele dia com uma sensação sufocante de thi em mim, como se intuísse, sem perceber, que algo nos reconectaria, ainda que superficial e brevemente. E a noite veio e trouxe tua ligação, e, nas trivialidades que conversamos durante aqueles poucos minutos, revivi tudo o que passou, e que eu tentava guardar em mim, em silêncio, mas que despertou inebriantemente com tuas palavras. E isso me fez bem, muito bem, apesar de. E adormeci em paz, pensando em thi. Recebi tua ligação na última segunda-feira como quem vive, no meio de toda a constante dor, um momento de pura felicidade.

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A voz do silêncio

Ouvi a leitura de teu comentário endereçado a mim na comunidade do orkut na última terça-feira como quem tem de encarar a pequena morte de sentimentos que luto para manter em meio a todo o silêncio, que não é providencial, nem imprescindível, mas um algoz de minhas vãs ingênuas pessoais esperanças de que chegará o momento em que. Passei aquele dia anestesiado, perdido entre o paradoxo da alegria de falar contigo na véspera e da melancolia por temer que aquilo tivesse sido apenas mais um hiato, sentindo alternadamente o caloroso sorriso da felicidade e o gélido olhar tristonho da saudade. E a noite veio e trouxe a notícia de tuas palavras, e, na ambígua assertividade de teu aparente estatuto do entender o "providencial e imprescindível" afastamento "até que se pise nas poças remanescentes de águas passadas", todo o paradoxo sumiu, todo o vivido se guardou mais uma vez em mim, em minhas velhas feridas, e tudo o que havia despertado quando ouvi tuas primeiras palavras da véspera, ao ouvir aquelas segundas, adormeceu novamente, dessa vez num sono sem sonhos. E isso me encheu de saudade, de uma imensa e dolorosa saudade. E custei a dormir, pensando em thi. Ouvi a leitura de teu comentário endereçado a mim na comunidade do orkut na última terça-feira como quem vive, no meio de toda a redescoberta felicidade, um momento de pura dor.

Terça-feira, Outubro 11, 2005

14. Em uma música, um retrato de mim

"De onde vem a calma daquele cara?
Ele não sabe ser melhor, viu?
Como não entende de ser valente,
ele não saber ser mais viril.
Ele não sabe não, viu?
E às vezes dá como um frio.
É o mundo que anda hostil.
O mundo todo é hostil...

De onde vem o jeito tão sem defeito

que esse rapaz consegue fingir?
Olha esse sorriso, tão indeciso.
Tá-se exibindo pra solidão.
Não vão embora daqui.
Eu sou o que vocês são.
Não solta da minha mão...
Não solta da minha mão...

Eu não vou mudar, não.
Eu vou ficar são.
Mesmo se for só,
não vou ceder.
Deus vai dar aval sim,
o mal vai ter fim,
e, no final, assim, calado,
eu sei que vou ser coroado rei de mim."

De onde vem a calma, de Los Hermanos

Segunda-feira, Outubro 10, 2005

13. Eu, ou "pedaços de uma auto-crítica"

Sou uma pessoa banal, virginiano com ascendente em câncer e dragão, daqueles que não conhece o paraíso. Ainda não perdi a fé no amor, por mais que me tenham machucado o coração. Não tenho medo da morte, que sei que vou viver muito, mais do que aqueles que considero meus, e morrer tranqüilo, em paz, com a sensação de que, apesar de tudo, fui muito feliz. Sou um filho distante, um irmão desgarrado, um padrinho ausente, mas sou o melhor dos amigos e o melhor dos namorados, dedicando-me integralmente a este tipo de relacionamento, negligenciando injustamente os outros, ainda que não receba nada em troca e que saiba que vou sofrer quando o fim chegar. Sou uma pessoa bastante segura no desenvolver minha vida profissional, mas extremamente insegura no viver meus relacionamentos afetivos, como se eu me prendesse continuamente a suprir algum tipo de carência remanescente do passado. Morei por quatro anos nos Estados Unidos e por dois anos na França e considero estas as experiências de maior enriquecimento cultural de minha vida, ainda que, com essas constantes mudanças, eu não tenha aprendido a criar raízes, a apegar-me a pessoas e lugares, sofrendo intensa mas brevemente o abrir mão. Tenho em meu pai meu herói. Sou capaz de perdoar, por maior que seja a ofensa, mas não consigo esquecer, que minha memória é minha pior maldição e minha maior bênção. Sou obstinado, mas não irascível; ciumento, mas não possessivo; objetivo, mas não agressivo. Uso parcimoniosamente e com significados específicos palavras como "sempre", "nunca", "ainda", "amor". Meus olhos dizem mais do que minha boca, para quem se preocupa em aprender a lê-los. Sou capaz de falar bastante, mas, quando o faço, raramente falo sobre assuntos pessoais, guardando em mim minhas dores mais profundas em silêncios que me consomem, privando quem me quer bem da chance de me ajudar com o que quer que seja. Ouço muito, tudo, todas as histórias, e guardo na memória o que me foi contado, seja em tom de segredo ou não. Vejo todos os detalhes, sou extremamente observador, mas critico pouco, que ainda não perdi a fé na humanidade. Ainda não aprendi a lidar com uma intuição aparentemente aguçada de que desfruto, sendo surpreendido de vez em quando por suas eventuais manifestações. Tenho um conhecimento apaixonado e quase enciclopédico de cinema, especialmente da produção a partir dos anos 80. Leio muito, praticamente tudo que me cai nas mãos. Tenho a música como uma exaltação da alma e faço questão de que ela esteja presente em todos os momentos de minha vida, ajudando-me especialmente a preencher aqueles marcados pelo estigma da silenciosa solidão. Meu autor preferido é Caio Fernando Abreu; meu conto preferido é o seu "Os dragões não conhecem o paraíso", do livro homônimo e também preferido; meu filme preferido é "Brilho eterno de uma mente sem lembranças"; minha música preferida é o "Outside looking in", de Michael Nyman. Não tenho amigos, irmãos, familiares, ex-amores preferidos, que acredito que amor não se mede dessa forma, nem de qualquer outra. Tenho um sorriso bonito, mas sorrio pouco, que, normalmente, por mais que a boca o esboce, os olhos, em sua bela e constante melancolia de pálpebras caídas, não o abraçam, que meu sorriso verdadeiro está em meus olhos, não em meus lábios. Adoro dar presentes, pela especial alegria de poder escrever o cartão que o acompanha. Penso muito, sobre tudo, analiso demais, mas me deixo tolher por uma paralisante insegurança, e as idéias e constatações normalmente ficam perdidas em mim, assombrando-me, como fantasmas, nos momentos de solidão. Fui um adolescente solitário e retraído, tive fantasias românticas sobre suicídio, mas hoje não entendo alguém ser emocionalmente frágil a ponto de tentar encerrar a própria vida. Aprendi a ser solitário, mas adoro todos os calores e tormentas do amor, em todo o seu ligar no meio do dia, no meio da noite, apenas para dizer "eu te amo"; no seu presentear sem motivo especial quem se ama; no seu proteger e se sentir protegido; no seu dedicar ao amado o primeiro pensamento quando se acorda e o último antes de ir dormir; no seu chorar as dores do outro, ao seu lado; no seu chorar minhas próprias dores, sozinho, ao término de tudo; no seu ganhar peso durante o florescer do amor e perder tudo de novo quando aquele botão seca; no seu não se permitir sentir raiva do amado, por mais que ele me machuque; no seu aprender a eternamente recomeçar, mesmo quando aquele que você considerava definitivo chegar ao fim. Sei ser manipulador para conseguir determinadas coisas que quero. Tenho um senso de humor altamente irônico e sarcástico, que normalmente assusta as pessoas que não convivem comigo, que o sarcasmo e a ironia exigem uma certa dose de inteligência. Sou inteligente, ao menos mais do que a maioria das pessoas com quem convivo, e me incomodo com isso, por enxergar essa característica como um fator de exclusão. Sou assustadoramente verdadeiro em meus relacionamentos afetivos, não importa o preço que eu tenha de pagar por isso, que ao menos assim conheço melhor as pessoas e identifico logo se elas inaceitavelmente se assustam com certas verdades. Sou extremamente confiável, leal e fiel, ainda que não o sejam comigo. Não sei administrar muito bem minhas próprias contas, sendo bastante perdulário com minhas posses, especialmente quando se trata de tentar abrilhantar o dia daqueles que amo. Gosto de meu rosto, de meu corpo, de meu jeito, mas sempre acho horríveis meus retratos, prolixos meus textos, e quase inaudível o som de minha voz. Sou pouco espontâneo, apesar de reconhecer que meus momentos mais felizes surgiram de atos puramente impulsivos. Choro com pouca facilidade e normalmente sozinho, por mais íntima e profunda que seja a dor. Não levanto a mão para atingir quem quer que seja, mas sei usar o poder das palavras e do silêncio para ferir de forma mais contundente do que se utilizasse meus próprios punhos. Tento ser politicamente correto, respeito leis a que ninguém mais obedece, tenho princípios pessoais a que ninguém dá valor, e procuro não me curvar às pressões nem me deixar envolver pelas hipocrisias e concessões alheias. Não me arrependo de nada do que faço, falo, sinto, que acredito que toda experiência é aprendizado, que tudo por que passamos, por pior que seja, existe para nos ensinar a sermos pessoas melhores. Sou, em verdade, a síntese e a antítese disso tudo, que não me conheço tão bem quanto pretendo e me surpreendo sempre a descobrir em mim traços que jamais suspeitei existir. Mas sei que sou profundamente melancólico e que sinto uma saudade danada, de tudo...

Domingo, Outubro 09, 2005

12. Los Hermanos, ou "mi corazón sangra"

Eles não tocaram "Mais uma canção"
Acho que foi melhor assim.
Teria-me levado a escrever a thi...
Teria-me machucado o coração...
Mais.

11. Janus

Quem é você? Você que conheço há tanto tempo e que, ainda assim, parece sempre novo, surpreendendo-me a cada dia. Você que olha o passado de forma a construir o futuro, reinventando-se a cada instante, reconhecendo sua própria transitoriedade e preservando apenas o que lhe faz bem. Você que não apresenta inícios, mas sabe perfeitamente ensinar o chegar aos fins, e a tudo o que neles se precisa aprender para crescer. Você que se mudou em minha vida, ganhando corpo, forma, alma, sentimento. Você cujas palavras me tocam, inebriam, incomodam, sacodem, confortam, enlevam, seduzem, prendem numa vontade crescente de querer-lhe apreender. Você que não me deixa entender os porquês, por não se preocupar com as perguntas, por ocultar as respostas. Você que me deixa cego, ainda que me pareça mostrar tanto. Você que me deixa a questionar sempre onde está você, ainda que sempre presente, ainda que constante. Você que me incluiu na peça, mas me deixa inseguro no palco, eternamente sem saber qual papel me cabe. Você que parece ter surgido do nada, mas que me invade com os seus tudos, que me assola com os seus mundos, e que me faz perguntar, face a suas faces: quem é você?

Sábado, Outubro 08, 2005

10. Evoluções

O menino acordou bruscamente, tão bruscamente que acreditou que o tivessem acordado. Na penumbra do quarto, percebeu que estava sozinho, mas ainda assim pairou uma dúvida, que lhe parecia sentir mais alguém ali consigo. Aos poucos, os olhos foram-se acostumando com a pouca luminosidade que entrava pelas frestas da janela, ao tempo em que ele emergia das névoas de seu noite após noite repetido sonho, que se dissipavam devagar, como a neblina que devia afogar o mundo lá fora. E, nesse lento despertar, ele girou na cama, preparando-se para abandonar seu agradável calor, quando então percebeu, ao lançar os pés para o chão num primeiro contato com a frieza matinal, as fotos e textos e imagens que ocupavam toda a extensão das paredes de seu quarto.

Por alguns breves segundos, viu-se açoitado por uma avassaladora sensação de pânico: estava mesmo em seu conhecido, cotidiano e confortável quarto? Mas reconheceu as prateleiras com seus CDs e livros espalhadas pelos cantos, a escrivaninha e o computador e as pilhas de papel, as flores no beiral da janela, e acalmou-se um pouco, reconectando-se à falsa segurança que sentem aqueles que se acreditam, face à visão de tais bens materiais, mais próximos daquilo a que se acostumam a chamar de lar. E somente então, já imbuído dessa ilusória sensação de controle de seu microcosmo pessoal, deixando para depois os comos e quandos e porquês, decidiu levantar-se e analisar melhor as imagens e fotos e textos que alteravam a realidade que ele sentia que tão fortemente dominava a fim de identificar o quem.

E, sem sequer perceber, caminhando a esmo, automaticamente, por aquele quarto que lhe era tão seu, sem se chocar contra qualquer de seus móveis, apesar da pouca luz, perdeu-se o menino na leitura dos textos, na contemplação das imagens, na identificação das fotos, e não percebeu o lento e constante recuar do estagnante sonho, o avançar da calorosa manhã, o intensificar da luz que banhava sua solitária busca, apenas acordando, de fato, ao ouvir os gritos da mãe, que se queixava do atraso que fazia esfriar o cuscuz. Foi então, ao som daquela mais do que qualquer outra familiar voz, que o menino piscou, parou, olhou em volta e viu-se lançado em um novo mundo. Estava em frente ao espelho pendurado atrás da porta e, pela primeira vez em muito tempo, dedicou-se a realmente contemplar seu corpo, seu rosto, seus olhos, e viu neles um brilho que não conhecia. E gostou. Vestiu-se com um esmero há muito perdido, habitualmente dedicado a festas com amigos ou a reuniões de família, cantarolando músicas que nem sabia que lembrava, lançando olhares furtivos em volta e sorrindo, franzindo o cenho, controlando as lágrimas ou simplesmente perdendo-se em reflexões surgidas a partir do que via, lia, contemplava. E saiu daquele quarto carregando consigo a certeza de que, a partir de então, a cada dia, ingressaria, ao acordar, em um universo em constante evolução.

Seus sonhos nunca mais foram o mesmo...

Leo, o menino é você, o menino sou eu, o menino somos todos nós que temos a honra de ver os céus de nossos mundos enfeitados com seus textos e fotos e imagens e alma e vida. Parabéns por este primeiro ano de Diário Evolutivo.

Sexta-feira, Outubro 07, 2005

9. Silêncio

"Silêncio, por favor,
enquanto esqueço um pouco a dor no peito..."
Para ver as meninas
, na sublime voz de Marisa Monte


E hoje me calo, hoje acredito escrever o último post que dedico a thi.

Quero que saibas que teu silêncio desses últimos dias me machucou. Os e-mails cujo recebimento não foi confirmado, a aparente indiferença diante das mensagens que enviei via celular, a falta de resposta a scraps escritos em sua página de recados do orkut, tudo isso me foi ferindo aos poucos, foi fazendo minguar em mim o (amor?) que ainda afetivamente sinto por nós dois, foi-me levando a entender que preciso deixar de dedicar tantas falas minhas a ti.

Somente posso acreditar que tudo isso, todo esse teu silêncio, venha de uma necessidade tua de entender nosso passado e de superar nossa história, desprender-se dela para o futuro, e, pensando assim, a minha dor é menor. Mas, pensando assim, ponho-me também no papel de me ver obrigado a fazer a mesma coisa, a também silenciar e buscar o equilíbrio que me fará aprender a conviver com a tua falta, a falta de tudo o que poderíamos (podemos) ser juntos.

E, por isso, hoje, exatamente uma semana após ter lido os Torpedimentos teus que dedicaste a mim, uma semana durante a qual vivi meus próprios, paro, acredito eu, de escrever para thi, de verter o que sinto em palavras que gostaria que chegassem a teu conhecimento. Tudo ficará guardado em mim, para o tempo em que, se este tempo um dia existir. Passo, então, saudoso e resignado, a viver em silêncio teu universo que passou e ficou em mim.

"O resto é silêncio"
Hamlet, antes de morrer, na peça homônima, de Shakespeare

Quinta-feira, Outubro 06, 2005

8. "Mais uma canção"

Preparando-me para o show de Los Hermanos a que assistirei no próximo domingo, tenho-me atualizado no repertório da banda, para não fazer feio no corinho. E descobri essa pérola perdida em meio à discografia deles, que me era desconhecida e que não posso deixar de dedicar a thi, porque sua letra me fala coisas que eu, com toda a minha ingenuidade, gostaria de um dia ouvir de você, porque sua música me lembra muito aquelas dos antigos realejos, porque ela está incluída no álbum dos irmãos chamado "Bloco do eu sozinho", retrato de como estou agora.

"Nada vai mudar entre nós... Como eu sei? Eu só sei.
Tudo vai permanecer igual, afinal, não há nada a fazer.
Eu não nego, eu me entrego, você é meu grande amor,
e hoje eu vou te dizer "eu te amo"...
Eu imploro, eu te adoro, você tem meu coração
a bater pra você mais uma canção.

Como pode alguém perder você como eu fiz? Como eu quis não te ter?
Vivo iludido a acreditar que o amor não se pôs em você.
Mas me entrego, eu não nego, eu errei, mas sou capaz
de fazer sua vida melhor.
Tô voltando, não sei quando, pra roubar teu coração,
vou chegar no final de mais uma canção."


Espero que você leia a letra, que você ouça a música, e que você guarde com você mais essa canção, junto a Those sweet words, a The blower's daughter, a Sem fantasia e a todas as outras pequenas melodias que marcaram nosso hiato...

Quarta-feira, Outubro 05, 2005

7. Um pouquinho de Luz

Sempre me considerei uma pessoa pouco disciplinada no que diz respeito à conexão com meu lado espiritual. Como a maioria dos membros da chamada classe média brasileira, fui criado dentro dos preceitos do catolicismo - batismo, confissão, primeira eucaristia, missa aos domingos, orações antes de dormir -, até ter um pouco mais de independência e consciência e desiludir-me com a máquina política que é a "Santa Igreja Católica Apostólica Romana" e simplesmente me afastar, pouco a pouco, de seus impositivos dogmas. Sempre me considerei uma pessoa de fé, não de doutrina, que a fé liberta, e a doutrina acorrenta. Sempre acreditei que todas as expressões religiosas, desde que levem unicamente as pessoas a buscarem sua libertação pela fé, sem segundas financeiras intenções, são válidas e, por isso, sempre fui aberto a ter contato com expressões desse tipo. E foi imbuído desse espírito de contato com o novo, de reconexão com a fé e suas manifestações, que aceitei o convite de Leo e fui com ele e Luise hoje, em mais uma reunião do futuro Clube dos Corações Remendados, ao Centro Espírita que ele habitualmente freqüenta.

Estar naquele lugar, rodeado de tanta paixão e compaixão, e ver-me pedindo, durante a benção inicial, que quem quer que ali estivesse levasse um pouco de mim, da paz que eu estava sentindo, a todos os que amo, e ouvir o visionário palestrante falando sobre aflições, sobre provações e sobre vencer o mundo, com uma convicção cega, literal e figurativamente, de que tudo era possível, e sentir a fé daquelas pessoas em oração e devoção, o coração bater forte no momento do "passe", a mente fervilhando no desejo de que a energia que eu estava recebendo fosse através de mim canalizada para aqueles a quem quero bem, tudo isso me fez um bem imenso, deixou-me leve e encheu com um pouquinho de luz meu enevoado coração. Saí de lá com uma vontade imensa de abraçar meus queridos, de transmitir a serenidade que eu sentia, de dividir com todos minha alma, ainda que dela não restasse nada para mim. Rezei aquela noite com uma devoção que não sentia há muito tempo, agradecendo por tudo que tive a chance de aprender e especialmente pedindo proteção e conforto para todos que precisam, e dormi um sono tranqüilo, reconfortante, certo de estar revivendo, reiniciando um período de paz...

Obrigado, Leo, por me ter recebido de forma tão calorosa em sua casa, em seu centro, por me ter proporcionado tais momentos, por ter desempenhado esse papel a você designado de ser como um anjo de luz para mim nesse dia.

Terça-feira, Outubro 04, 2005

6. Cicatriz(es)

Peguei-me pensando no dedo que você feriu no início da tarde daquela última quinta-feira, ao tentar fechar a porta do apartamento após sairmos, no princípio do fim de nosso hiato, no começar o processo de cura. A visão do odioso sangue maculando sua pele parecia um retrato das feridas abertas em meu peito pelo nosso contrito e covarde reconhecimento de nossa impossibilidade, e por isso não tive coragem de thi ajudar, de cuidar de sua ferida, de tentar minimizar sua cicatriz.

Mas o que me marcou mesmo naquele dia aconteceu pouco antes de você se ferir na porta, aconteceu quando nos vimos obrigados a, no aparente fim daquele processo de separação, ferir nosso coração. O que me marcou mesmo naquele dia foi perceber sua mão vindo, lentamente, por trás de mim, fechar a porta que eu tinha acabado de abrir; foi sentir sua mão em meu ombro, virando-me para encarar você, para nossa dolorosa apropriada despedida; foi ver seus olhos nos meus, meus olhos nos seus, enquanto você, desnecessariamente, injustificadamente, pedia desculpas, pedia que eu não sentisse raiva de você, e me ouvia dizer que não existia o que perdoar, que não existia o que odiar, que somos humanos, que temos conflitos, e que não estávamos passando na vida um do outro, mas ficando de outra forma, como o universo; foi ter seus braços em torno de mim, num último abraço, ter seus lábios nos meus, num último beijo; foi separar-me de você, de seu calor, e ser obrigado a aprender a não mais olhar você com os olhos do amor que eu queria sentir; foi sofrer o abrir das feridas em meu coração e não saber o que fazer para minimizar as futuras cicatrizes.

Peguei-me pensando no dedo que você feriu no início da tarde daquela última quinta-feira, e que revi quase curado no sábado seguinte, e, lá no fundo, apesar da breve agonia de reviver aquela despedida, entendi que este é o caminhar natural de qualquer ferida: todas marcam um momento de dor, deixando em nosso corpo, em nossa alma, um registro de sofrer, mas todas também passam, têm um fim, independente da cicatriz que fica. Estou marcado, mas estou bem, que essas marcam tiram um pedaço de mim, mas deixam em mim pedaços de você.

Segunda-feira, Outubro 03, 2005

5. Clube dos Corações Partidos

Em homenagem a Leo Costa e Luise Reis, meus companheiros de desilusão

Éramos três almas solitárias, sentadas juntas naquela calçada sobre a praia, tomando sorvetes num início de noite de domingo e fundando, secreta e involuntariamente, nosso Clube dos Corações Partidos.

Os dedos lambuzados pelo sorvete que derretia tinham mais sabor que nossas desventuras de amor, e ainda assim ríamos de nossas bobagens, de nossas pequenas histórias de dias mais felizes. E entre o dividir de um plano e outro, o falar da família, do passado, do processo de crescimento de cada um, vez por outra se ouvia um suspiro perdido entre nós pela falta de alguém a quem ligar quando chegássemos em casa para dizer "estou com saudades de seu colo, boa noite, dorme bem, sonha comigo", de alguém a quem presentear sem qualquer motivo, apenas para ver um sorriso, de alguém a quem dedicar o primeiro pensamento quando se acorda, antes mesmo de se maldizer o despertador, e o último antes de dormir, enquanto o implacável sono ainda não turvou demais o pensamento.

Mas, apesar de tudo, sentíamos-nos completos em nós mesmos, em nossa tríade de cacos de corações partidos, e olhávamos o futuro com esperança e um certo sossego, e fazíamos planos juntos de nos divertirmos durante a semana, ajudando um ao outro a superar e a esquecer os males dos nossos amores passados. Ninguém que visse nossas costas arqueadas voltadas para a rua, nossos rostos mal iluminados pelos postes, contemplando o mar, os barcos, as luzes do outro lado da enseada, nossos esporádicos risos e suspiros, imaginaria existir ali tão complexos e paradoxais microcosmos de desilusão e esperança, amor perdido e amizade celebrada, plenitude e recomeços. E o gosto de sorvete de banana ainda em minha boca ao voltar para casa reacendeu em mim algumas pequenas chamas, banhando com sua doçura meu coração, ajudando a colar mais alguns caquinhos e me ensinando que o amor se reinventa e sempre encontra novos destinatários para seu afeto.

Domingo, Outubro 02, 2005

4. Lembrança

E sempre vou lembrar de você em momentos assim...

...quando a noite negra já cobriu tudo com seu véu e eu ouvir, na solidão de meu quarto vazio, a chuva cair lá fora e lavar o mundo com as lágrimas que não verti por thi...

...e lembrar de teu beijo no carro, ao som Daquelas Palavras Doces de Norah Jones, um beijo tímido, incerto, inseguro do que estava por vir...

...e sentir novamente na pele, apesar da opressão da chuva que cai lá fora, o calor daquele Sol que nos serviu de testemunha na praia, naquele tatear recíproco de nossas mentes ávidas por conhecer melhor o outro e tentar comprovar que as amigas estavam certas, e que a insegurança da véspera não passava de um temor obscuro e insensato...

...e rever, no fundo da mente, você deitado, assistindo aos filmes que vimos juntos, você pela primeira vez, extraindo deles toda a beleza que eu já conhecia, enquanto eu, vendo-os pela enésima vez, extraía do vislumbre de seu entretenimento toda a beleza que eu sentia, eternizando imagens de você deitado, assistindo aos filmes que vimos juntos...

...e, no escuro de minha solidão, sofrer o breve ofuscar da recordação dos flashs das fotos que tiramos, retratos de instantes felizes, registros de um tempo em que tudo era novo, diferente, eterno...

...e, deitado sozinho em meu quarto, em minha cama, eu olhar para o lado e não ver seu olhar que me espreitava de volta na penumbra, seu sorriso maroto que me desejava um calado "boa noite", seu rosto que velei no sono daquelas noites passadas em outro quarto, em outra cama...

...e reviver, na ponta dos dedos perdidos no lençol, cada arrepio de sua pele morena e quente ao meu suave afagar, a maciez de seu cabelo emaranhado entre meus dedos, a textura da camisa que te dei contra o teu corpo...

...e pensar perceber no ar, no corpo, na boca, teu cheiro, teu peso, teu gosto...

...e adormecer sentindo o fantasma do envolvimento de teus braços em nosso abraço, da respiração ofegante de tuas narinas congestionadas, dos pequenos e breves beijos que você me depositava entre as omoplatas, entre os olhos, entre os lábios...

...e sonhar, sonhar aquele sonho de nós dois que vivemos naqueles dias da semana passada, maiores que a realidade, maiores que a vontade, maiores que a inconscientemente reconhecida "impossibilidade" de ficarmos juntos ao final daquele hiato, daquela suspensão, daquele datado amor...

...e lembrar de você, de tudo em você, sempre em momentos assim, em que não thi consigo esquecer...

Quarta-feira, Setembro 28, 2005

3. Despedida

"Quem nesse mundo faz o que há durar?
Pura semente dura o futuro amor
Eu sou a chuva pra você secar
Pelo zunido das suas asas você me falou
O que está dizendo?
Milhões de frases sem nenhuma cor
O que você está dizendo?
Um relicário imenso desse amor..."
Vou-me embora por tua causa, não por minha causa, em respeito aos teus medos, não aos meus. Viveria este instante até domingo, como um namoro com data marcada, como um "amor de verão". Mas as possíveis futuras dores nossas são maiores do que as promessas de singelas felicidades. E domingo morre nesta quarta-feira e mata o que queria viver sem fantasia. Se nossa realidade fosse outra, acredito que teríamos a chance de sermos felizes juntos...