Sou uma pessoa banal, virginiano com ascendente em câncer e dragão, daqueles que não conhece o paraíso. Ainda não perdi a fé no amor, por mais que me tenham machucado o coração. Não tenho medo da morte, que sei que vou viver muito, mais do que aqueles que considero meus, e morrer tranqüilo, em paz, com a sensação de que, apesar de tudo, fui muito feliz. Sou um filho distante, um irmão desgarrado, um padrinho ausente, mas sou o melhor dos amigos e o melhor dos namorados, dedicando-me integralmente a este tipo de relacionamento, negligenciando injustamente os outros, ainda que não receba nada em troca e que saiba que vou sofrer quando o fim chegar. Sou uma pessoa bastante segura no desenvolver minha vida profissional, mas extremamente insegura no viver meus relacionamentos afetivos, como se eu me prendesse continuamente a suprir algum tipo de carência remanescente do passado. Morei por quatro anos nos Estados Unidos e por dois anos na França e considero estas as experiências de maior enriquecimento cultural de minha vida, ainda que, com essas constantes mudanças, eu não tenha aprendido a criar raízes, a apegar-me a pessoas e lugares, sofrendo intensa mas brevemente o abrir mão. Tenho em meu pai meu herói. Sou capaz de perdoar, por maior que seja a ofensa, mas não consigo esquecer, que minha memória é minha pior maldição e minha maior bênção. Sou obstinado, mas não irascível; ciumento, mas não possessivo; objetivo, mas não agressivo. Uso parcimoniosamente e com significados específicos palavras como "sempre", "nunca", "ainda", "amor". Meus olhos dizem mais do que minha boca, para quem se preocupa em aprender a lê-los. Sou capaz de falar bastante, mas, quando o faço, raramente falo sobre assuntos pessoais, guardando em mim minhas dores mais profundas em silêncios que me consomem, privando quem me quer bem da chance de me ajudar com o que quer que seja. Ouço muito, tudo, todas as histórias, e guardo na memória o que me foi contado, seja em tom de segredo ou não. Vejo todos os detalhes, sou extremamente observador, mas critico pouco, que ainda não perdi a fé na humanidade. Ainda não aprendi a lidar com uma intuição aparentemente aguçada de que desfruto, sendo surpreendido de vez em quando por suas eventuais manifestações. Tenho um conhecimento apaixonado e quase enciclopédico de cinema, especialmente da produção a partir dos anos 80. Leio muito, praticamente tudo que me cai nas mãos. Tenho a música como uma exaltação da alma e faço questão de que ela esteja presente em todos os momentos de minha vida, ajudando-me especialmente a preencher aqueles marcados pelo estigma da silenciosa solidão. Meu autor preferido é Caio Fernando Abreu; meu conto preferido é o seu "Os dragões não conhecem o paraíso", do livro homônimo e também preferido; meu filme preferido é "Brilho eterno de uma mente sem lembranças"; minha música preferida é o "Outside looking in", de Michael Nyman. Não tenho amigos, irmãos, familiares, ex-amores preferidos, que acredito que amor não se mede dessa forma, nem de qualquer outra. Tenho um sorriso bonito, mas sorrio pouco, que, normalmente, por mais que a boca o esboce, os olhos, em sua bela e constante melancolia de pálpebras caídas, não o abraçam, que meu sorriso verdadeiro está em meus olhos, não em meus lábios. Adoro dar presentes, pela especial alegria de poder escrever o cartão que o acompanha. Penso muito, sobre tudo, analiso demais, mas me deixo tolher por uma paralisante insegurança, e as idéias e constatações normalmente ficam perdidas em mim, assombrando-me, como fantasmas, nos momentos de solidão. Fui um adolescente solitário e retraído, tive fantasias românticas sobre suicídio, mas hoje não entendo alguém ser emocionalmente frágil a ponto de tentar encerrar a própria vida. Aprendi a ser solitário, mas adoro todos os calores e tormentas do amor, em todo o seu ligar no meio do dia, no meio da noite, apenas para dizer "eu te amo"; no seu presentear sem motivo especial quem se ama; no seu proteger e se sentir protegido; no seu dedicar ao amado o primeiro pensamento quando se acorda e o último antes de ir dormir; no seu chorar as dores do outro, ao seu lado; no seu chorar minhas próprias dores, sozinho, ao término de tudo; no seu ganhar peso durante o florescer do amor e perder tudo de novo quando aquele botão seca; no seu não se permitir sentir raiva do amado, por mais que ele me machuque; no seu aprender a eternamente recomeçar, mesmo quando aquele que você considerava definitivo chegar ao fim. Sei ser manipulador para conseguir determinadas coisas que quero. Tenho um senso de humor altamente irônico e sarcástico, que normalmente assusta as pessoas que não convivem comigo, que o sarcasmo e a ironia exigem uma certa dose de inteligência. Sou inteligente, ao menos mais do que a maioria das pessoas com quem convivo, e me incomodo com isso, por enxergar essa característica como um fator de exclusão. Sou assustadoramente verdadeiro em meus relacionamentos afetivos, não importa o preço que eu tenha de pagar por isso, que ao menos assim conheço melhor as pessoas e identifico logo se elas inaceitavelmente se assustam com certas verdades. Sou extremamente confiável, leal e fiel, ainda que não o sejam comigo. Não sei administrar muito bem minhas próprias contas, sendo bastante perdulário com minhas posses, especialmente quando se trata de tentar abrilhantar o dia daqueles que amo. Gosto de meu rosto, de meu corpo, de meu jeito, mas sempre acho horríveis meus retratos, prolixos meus textos, e quase inaudível o som de minha voz. Sou pouco espontâneo, apesar de reconhecer que meus momentos mais felizes surgiram de atos puramente impulsivos. Choro com pouca facilidade e normalmente sozinho, por mais íntima e profunda que seja a dor. Não levanto a mão para atingir quem quer que seja, mas sei usar o poder das palavras e do silêncio para ferir de forma mais contundente do que se utilizasse meus próprios punhos. Tento ser politicamente correto, respeito leis a que ninguém mais obedece, tenho princípios pessoais a que ninguém dá valor, e procuro não me curvar às pressões nem me deixar envolver pelas hipocrisias e concessões alheias. Não me arrependo de nada do que faço, falo, sinto, que acredito que toda experiência é aprendizado, que tudo por que passamos, por pior que seja, existe para nos ensinar a sermos pessoas melhores. Sou, em verdade, a síntese e a antítese disso tudo, que não me conheço tão bem quanto pretendo e me surpreendo sempre a descobrir em mim traços que jamais suspeitei existir. Mas sei que sou profundamente melancólico e que sinto uma saudade danada, de tudo...